- Eu... superior... a você - gaguejou Goldmund, com a sensação de que seu corpo inteiro ficara entorpecido.
- Certamente - continuou Narciso - Naturezas como a sua, com percepções fortes e delicadas, guiadas pela alma, os sonhadores, os poetas, os amantes, são quase sempre superiores a nós, homens do espírito. Sua origem é materna. Vocês vivem plenamente; foram dotados da força do amor, da capacidade de sentir. Ao passo que nós, seres da razão, embora freqüentemente pareçamos estar governando e dirigindo vocês, não vivemos plenamente, vivemos numa terra árida. A vocês pertence a plenitude da vida, a seiva das frutas, o jardim do amor, o belo panorama das artes. Seu lar é a terra; o nosso o mundo das idéias. Vocês correm o risco de se afogar no mundo dos sentidos; o nosso risco é de sufocarmos no vácuo. Você é um artista; eu, um pensador; Você dorme no regaço materno; eu acordo no deserto. Para mim brilha o sol; para você, a lua e as estrelas; você sonha com moças; eu, com rapazes...
Do capítulo 19:
Narciso: [...] Somente agora percebo quantos caminhos levam ao conhecimento e que o caminho do espírito não é o único, e talvez nem mesmo o melhor. É o meu caminho, é claro, e vou permanecer nele. Mas vejo que você, no caminho oposto, no caminho dos sentidos, compreendeu o mistério do ser na mesma maneira profunda, e consegue expressá-lo de um modo muito mais convincente do que a maioria dos pensadores é capaz de fazer.
- Agora você compreende - disse Goldmund - porque não posso conceber pensamentos sem imagens?
- Há muito tempo que compreendi. Nosso pensamento é um processo constante de converter coisas em abstrações, um afastamento do sensorial, uma tentativa de construir um mundo puramente espiritual. Ao passo que você atrai para o seu coração o menos permanente, as coisas mais mortais, e mostra o sentido do mundo justamente no que é perecível. Você não desvia o olhar do mundo, você se entrega a ele, e por meio do seu sacrifício, você o eleva às alturas, uma parábola de eternidade. Nós, pensadores, tentamos nos aprozimar de Deus, arrancando do rosto dele a máscara do mundo. Você, ao contrário, aproxima-se dele amando a sua criação e recriando-a. As duas coisas são esforços do homem, e necessariamente imperfeitos, porém a arte é mais inocente.
E concluindo... sempre dos labios de Narciso:
Quando um homem tenta realizar-se por meio das qualidades que a natureza lhe deu, está fazendo a melhor e a única coisa que pode fazer.




















Nenhum comentário:
Postar um comentário