sábado, 23 de maio de 2009

O Derviz - Hafiz

Como manifestar a tua gratidão ao Céu que te é propício? Com que tributo? Com que oferenda?

Na rua em que mora o Amor, o esplendor dos reis é pura vaidade. Confessa tua escravidão e orgulha-te de ser escravo.

Àquele que ia tombando e que Deus segura pela mão, dize: - “Que o teu papel seja partilhar as tristezas dos que caíram”.

E tu, Saki, transpõe o limiar de minha porta. Doce mensageiro, liberta-me o coração, por um instante, das tristezas de que o mundo o oprime.

Quantos perigos na estrada real das dignidades e das grandezas! É prudente evitá-la quanto possível.

O pensamento do Sultão só se ocupa de inimigos, conquistas e coroas. O Derviz só pensa na calma da tarde e no plácido refúgio do calênder.

Deixa-me confiar-te um segrêdo: mais vale a paz do que o poder.

Hafiz, não laves o rosto para limpá-lo da poeira que a pobreza tranqüila nêle acumulou: esta poeira vale mais do que o ouro do alquimista.

De "Os gazéis de Hafiz" tradução de Aurelio Buarque de Hollanda
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terça-feira, 19 de maio de 2009

Motivo - Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

Cecilia Meireles, "Melhores poemas", Global Editora, 1984 - S.Paulo, Brasil
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

A taverna - Hafiz

Homem puro, não censures aquele que ama o vinho: os pecados alheios não serão levados à tua conta.

Cada um colherá o que houver semeado. Não me arrastes ao desespero por causa do meu passado: sabes quem, atrás do véu, será tido por bom ou mau?

Indulgente ou severo para consigo mesmo, cada um procura o Amor. Sinagoga ou mesquita – todo lugar pode ser o Altar do Amor.

Não sou eu o único expulso da casa santa. O próprio Adão, nosso pai, deixou fugir de suas mãos o Éden.

Deve ser doce o jardim do Paraíso; mas – cuidado! – não o confundas com a sombra macia do salgueiro ou a margem da estrada.

Confia pouco em tuas obras. Como podes ler de antemão o que a pena do Criador escreveu para ti?

No último dia, ó Hafiz, mesmo se ainda tiveres a taça na mão, poderás, da taverna, ser levado ao Paraíso.

De "Os gazéis de Hafiz" tradução de Aurelio Buarque de Hollanda
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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Narciso e Goldmund, Herman Hesse

Do capítulo 4:

- Eu... superior... a você - gaguejou Goldmund, com a sensação de que seu corpo inteiro ficara entorpecido.
- Certamente - continuou Narciso - Naturezas como a sua, com percepções fortes e delicadas, guiadas pela alma, os sonhadores, os poetas, os amantes, são quase sempre superiores a nós, homens do espírito. Sua origem é materna. Vocês vivem plenamente; foram dotados da força do amor, da capacidade de sentir. Ao passo que nós, seres da razão, embora freqüentemente pareçamos estar governando e dirigindo vocês, não vivemos plenamente, vivemos numa terra árida. A vocês pertence a plenitude da vida, a seiva das frutas, o jardim do amor, o belo panorama das artes. Seu lar é a terra; o nosso o mundo das idéias. Vocês correm o risco de se afogar no mundo dos sentidos; o nosso risco é de sufocarmos no vácuo. Você é um artista; eu, um pensador; Você dorme no regaço materno; eu acordo no deserto. Para mim brilha o sol; para você, a lua e as estrelas; você sonha com moças; eu, com rapazes...

Do capítulo 19:

Narciso: [...] Somente agora percebo quantos caminhos levam ao conhecimento e que o caminho do espírito não é o único, e talvez nem mesmo o melhor. É o meu caminho, é claro, e vou permanecer nele. Mas vejo que você, no caminho oposto, no caminho dos sentidos, compreendeu o mistério do ser na mesma maneira profunda, e consegue expressá-lo de um modo muito mais convincente do que a maioria dos pensadores é capaz de fazer.
- Agora você compreende - disse Goldmund - porque não posso conceber pensamentos sem imagens?
- Há muito tempo que compreendi. Nosso pensamento é um processo constante de converter coisas em abstrações, um afastamento do sensorial, uma tentativa de construir um mundo puramente espiritual. Ao passo que você atrai para o seu coração o menos permanente, as coisas mais mortais, e mostra o sentido do mundo justamente no que é perecível. Você não desvia o olhar do mundo, você se entrega a ele, e por meio do seu sacrifício, você o eleva às alturas, uma parábola de eternidade. Nós, pensadores, tentamos nos aprozimar de Deus, arrancando do rosto dele a máscara do mundo. Você, ao contrário, aproxima-se dele amando a sua criação e recriando-a. As duas coisas são esforços do homem, e necessariamente imperfeitos, porém a arte é mais inocente.


E concluindo... sempre dos labios de Narciso:

Quando um homem tenta realizar-se por meio das qualidades que a natureza lhe deu, está fazendo a melhor e a única coisa que pode fazer.
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Mais um pouco de Rumi

Noite após noite, a alma
Em sonhos se dissolve
E a cada sonho, a alma
Abeira-se da forma.

Por que pensar no tempo,
Se és o motor do tempo?

És alma da verdade,
Ó sonho dos meus sonhos.
És forma sublimada,
E mais não sei dizer.

De "A sombra do amado, poemas do Rumi" Marco Lucchesi, Fissus Editora
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No mundo da flor...

Primeira criatura em parceria com Seu Idilio, Felipe Souza, irmão, compositor, poeta pai desses versos genias :)





Em tudo há flores...
Pra quem sabe olhar...
Na dança das cores,
Na vida das dores,
No lacrimejar.

Num mar de rumores,
Em mim guardo amores,
Que cheiram a flores
Só de relembrar

E enquanto andarilho,
Com rosas dou brilho,
E planto jardins,
Só de imaginar.

Orquídeas e lírios,
Cristais de delírio,
Causando estribilhos
No meu declamar.

Num mar violeta,
No cravo, crisântemo,
De tanto que as amo,
Já vejo meu fim.

Em tudo há flores...

E sinto que a vida,
Que é flor margarida,
Foi-me oferecida,
Cheirando a jasmim...

Mas quando não mais,
Quando já em paz,
Onde o corpo jaz,
Vão chorar por mim.

E por mutação,
Quero a condição
De ser girassol,
Ou então, capim...

E por baixo das flores,
Cantando clamores,
Verei suas cores,
Colorindo a mim.

Findando o temor,
Conceito, valor.
No mundo da Flor,
O Amor é sem fim...

Em tudo há flores...
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