- Bom, mas tu és a Torre, Angel Ark-. Mais do que um dizer, este era um gambito que I. N. Fab usava como nossa contra-senha. E tenha razão de ser, eu sou como as torres no jogo do xadrez, peças que correm com movimento longo e sempre ao longo e ao largo. I. N. Fab é um Rei nato. Não sei jogar xadrez, mas se diz que o Rey, mesmo que faça pouco, gravita no coração de toda estratégia. I. N. Fab tenha a nervura de peça clave em qualquer jogo cósmico.
A técnica do enroque traz seu momento de vertigem. Angustia no arco da troca. Com o enroque um se torna o pensamento do outro. Bom, não é totalmente bem assim, mas um passa a ser aquela parte do outro que faz muito, muito tempo enunciava palavras. As palavras eram sons correndo como as contas de um colar. “Torre”, “Rei”, “Conta”, “Colar”, eram palavras.
O que acabo de dizer foi desnecessário porque tudo o que esta pagina consigna já vá ao enroque. Vocês estão lendo minha mente como um livro aberto. Não sei bem se sofro por me ver exposto assim ou pelo que vou relatar.
- Diz-me, Fab, as pessoas anteriormente buscavam o enroque?-. Fiz essa pergunta quando I. N. Fab girava perto de mim.
- Sim –falou Fab com nostalgia- muitos foram os que alguma vez tentaram sair de seu próprio corpo.
Produziu-se o silencio, uma pausa pudica. Viola-se e se é violado quando no uso do enroque tanto de um passa a ser do outro. Como luva feita de pele humana.
Fab rodava à minha direita quando dei fim ao silencio:
- Como era o homem anteriormente, I. N. Fab?
Ele começou a falar e as suas “palavras” foram linhas de força que construíam e davam sentido ao meu pensamento.
- Os homens anteriormente foram três.
- Três homens?
- Sim, o primeiro homem vivia em um território pequeno não maior do que uma milha quadrada. Conhecia cada pedra, cada passo, cada signo em seu domínio. O centro dessa milha estava no palmo de suas mãos. E que mãos eram essas! Colossos de mãos curiosas, todo queriam abarcar e triturar. Tomavam uma erva...
- Uma erva?
- Sim, tomavam uma erva do mato e a esfarelavam para tirar o seu cheiro. Comiam com avidez as plantas, os animais, as maravilhas.
O discurso de Fab chegava límpido e preciso. Creia no que ele estava me dizendo. O relato desses homens era simples, como uma fabula. Me afastei ao perguntar:
- Porquê uma milha?
- Uma milha quadrada.
- Sim, porque? Pelo abarcar de uma pedra jogada no ar?-, aventurei.
- Não, Angel Ark, os primeiros homens não tenham essa força de propulsão.
- E então como?
- Não sei –respondeu Fab- e acho que não importa. Uma milha é uma paisagem, um campo de batalha, o dilatado império de uma criança.
- Sem duvida, tenham filhos-, falei e essa frase passou ao enroque antes de eu ter pensado ela. Nem sequer consegui tirar dela aquele tom interrogante.
- Sim, Angel Ark, os primeiros homens eram férteis, seus filhos nasciam sem travas, cresciam na terra, e às vezes morriam ainda pequenos.
- E os que vieram depois?- perguntei para mudar de tema.
- Os homens da segunda fase?
- Sim.
- Sim, eles também eram férteis –continuou Fab- mas já tenha se produzido uma mudança. Agora a criação em si era importante; o filho, como criatura, menos. Esses homens inventaram as idéias: Qual é a relação entre a ferida e a febre? Entre a oração e a cura? Entre o beija-flor e o arco íris? Entre a vida e a morte?
- E tu sabes tudo isso?
- Consta-me que essas coisas foram sabidas. Do meu jeito, eu sei; assim como tu sabes, da forma em que tu lembras.
E o estranho é que Fab tem razão. Como é possível que eu saiba como é o mercúrio se eu nunca o tenho visto? Como eu sei que tenho essa textura?
Hei de seguir perguntando:
- E o território de segundo homem?
Fab demorou em me responder.
- O perímetro interno dele era a duvida. Lá fora, o seu nicho chegava ao sol e os seus planetas e uma cortina de nada preta onde via as estrelas.
Fab se abre em espiral aberta, para logo bramar na distancia:
- E que fanáticos da duvida eles eram!
- Porque? –diz- Como assim?
A voz dele ao se aproximar foi outra vez didática. Eu fiz me oco para ouvir-lo. Ele estava bem perto.
- Cada idéia que inventavam dava luz a duas duvidas. Toda a sua razão de ser era pôr tudo em interrogação. Até duvidavam da segurança que dá o próprio duvidar. François Villon foi o poeta da duvida. Ele dizia:
Somente confio nas coisas incertas,
Só as coisas claras estão para mim lamacentas,
Não abrigo duvidas a não ser na incerteza
E se por azar o conhecimento busco,
Quando ganho tudo, perdendo me retiro.
Sim, eu já tenha ouvido essa poesia. De imediato compreendi que tudo aquilo que tenha sido dito não era novo para mim. Conhecia cada palavra, a menor inflexão. Era como um conto de fadas sovado por mil repetições. Fab sempre me contava o mesmo conto e eu –por assim dizer- o sabia de cor. Mas sempre tenha a novidade do eco.
Erguei-me devagar numa pergunta:
- Queres me falar das constantes?
Não me responde e então suplico:
- Fab, quero saber, preciso saber.
- Sim, deves!-, Fab foi tão seco e tão final que quase quebra o enroque. Nossos corpos eram dois vértices e nada no meio.
- Então chegou o momento?
- Sim, Angel, chegou.
Tenho entendido que o desespero domado chama-se sabedoria. Assim sendo, o sofrimento de I. N. Fab tenha todo o saber de uma nostalgia sem fim e infinitamente sabia.
A abertura de Fab foi num tom leve:
- Os segundos homens descobriram que tudo tem um contorno e um limite. Isso foi visível nas coisas muito grandes e nas muito pequenininhas. A imaginação, Angel, é um campo com uma linha de cal.
- Sim?
- Sim, esses homens descobriram a linha de cal do tempo.
Não consigo palpar essas analogias. Vocês, que lêem minha mente, o sabem muito bem. Já faz tempo que deixamos atrás o ultimo andaime de lógica simbólica. Só enrocando podemos pensar pensamentos que tenham a enganosa forma de algo que se diz. Toda analogia é um labirinto e o homem, antes de ser símio, foi um roedor de túneis. Nosso pensamento é cego para com a historia, porque já não temos historia, somos uma atualidade. Preciso saber. Não só o que já aconteceu, mas também o que vai acontecer, sim, o que vai acontecer. Tenteando falei:
- Mas temos superado a velocidade da luz.
- Sim.
- Então, o que foi uma limitação já não o é mais.
- Isso não é bem assim. É verdade que vamos a uma velocidade além da luz, mas com tudo não temos superado a linha de cal.
- Mas, a poli-ubiqüidade...- não consegui continuar porque Fab continuou. Falava-me com paciência, tomando a minha incompreensão com respeito:
- Quando digo que a limitação, que a linha de cal ainda persiste, falo das renuncias que foram necessárias para superar as constantes. Para vencer-lhe à luz perdemos o que os homens chamam de “este lugar”, “este sitio”. O preço da nossa ubiqüidade é a falta de localidade. Tu bem sabes, Angel, que a nossa ubiquação, quando enrocamos, é um artefato de ilusão.
Será atavismo, mas senti um desarraigo medular. Uma saudade pelo solo e pela chumbada da gravidade. É possível a saudade por vértebras que nunca se tiveram?
Retomei o fio quando Fab falou da segunda constante. Na verdade, essa constante, num principio só foi entrevista, já que os segundos homens não compreenderam que os homens estavam em frente a uma constante que na verdade não era física.
- E como é essa constante?
- Essa constante diz que não se pode registrar um fato sem transformar-lo. Os olhos são reativos que mordem aquilo que enxergam.
- E como chama-se essa constante?
- Lei Geral da Transferência.
- É por isso que enrocamos?
- Sim, foi a segunda constante que tivemos que superar e também cobrou seu preço. Para conseguir uma objetividade transparente, que não impressione o objeto, temos nos despojado do dom e da oportunidade de estar com alguém. Já ninguém impressiona ninguém. Temos perdido a copula, o casal, a família. Está extinta em nós a motivação do beijo.
De repente conjurei uma imagem esquecida:
- Então é verdade que ao gritar dilata-se a pupila do outro?
- Sim.
- E isso foi uma perda?
- E pra quem perguntar?- respondeu Fab, com um quê de impaciência. – Imagino que sim, que num certo sentido foi uma perda. Para ganhar objetividade livre temos perdidos nossa pele sendo acariciada, nossas mãos que palpam, perdemos o tímpano e sua ressonância pela música. Não temos, tal como dissestes, a intuição de ver nos olhos dos outros.
Na ilusão da nossa geografia Fab retirou-se. Fiquei no breu, completamente só.
- E porque queres falar comigo?- perguntei para fora.
A resposta demorou em chegar:
- Angel, estamos em frente a uma nova constante e tem chegado o momento de tomar uma decisão:
- E qual é?
Fab deu a impressão de duvidar:
- Os terceiros homens, nós temos a opção de ser imortais, podemos viver para sempre. Viver sem sempre, sem nunca, sem não obstante. Viver infinitamente.
Percebi sua tristeza.
“Porque estás tão triste”, quis gritar com a minha voz sem tímpano. Mas não consegui fazer-lo. Perguntei, pelo contrario:
- E qual é a linha de cal?
- Para ser imortal, o homem deve renunciar a ser um. Todos seremos um.
Sobreveio o silencio.
Quando Fab voltou a falar, percebi que o silencio tenha-se dilatado:
Continuava sozinho na escuridão, só sem resposta, sem vértebras, sem copula, só com a tenaz identidade do mercúrio.
- Rey?
- Torre –me respondeu. – Torre Regia.
- Fab, por que me tentas?
- Todos seremos um, Angel.
- Não, I. N. Fab, a resposta é não.
- Porque Angel Ark?
- Não posso, Fab. Não sei bem porque, mas não posso renunciar-me. Por soberbia, talvez, ou por temperança. Quiçá precise morrer.
O espaço continuava escuro e senti a etérea qualidade do que não tem limites. Logo escutei sua voz que dizia com pena profética:
- Sim, eu o sabia, Lúcifer.
E comecei a cair.



















